A rua da ladeira

O Palhaço via a Moça passando pela rua as voltas com seus livros e mil pensamentos que lhe agitavam o cabelo moreno. Ele, cercado de pequenas crianças que lhe admiravam a habilidade de equilibrar bolas no ar em movimento, lhe sorri quando ela passa. Ela lhe sorri de volta e segue o seu caminho.
A noite chega e as estrelas se escondem atrás das nuvens carregadas. Ela senta na janela do quarto que dá para a rua bebendo o vinho que comprou para o natal. Fica ouvindo Zélia Duncan enquanto lê e conversa com o velho labrador chocolate.
O Palhaço, sentado em sua própria janela, vê a silhueta da Moça na janela contra a luz e lhe desenha a carvão no papel. A Moça da janela devaneia e ele deseja por um segundo entrar em seus pensamentos e saber o que lhe vai na alma; a moça do desenho lhe diz que não tarda a chover.


Há muito que a Moça e o Palhaço se batem na rua, e não me ocorre os dois personagens em uma rua que não seja uma ladeira. A Moça mora mais acima algumas casas, e o Palhaço consegue lhe ver os contornos de sua janela. Ela até sente que é observada, mas não consegue ver de onde, então se lembra de que sua avó lhe diz que é seu anjo da guarda.
O Palhaço coloca o desenho junto com os outros que fez dela, e sorri pensando que precisa de uma visão mais próxima para lhe acertar as curvas do desenho. Não sabe exatamente o que ela tem que lhe prende a atenção. Sabe, todavia, que tem certa curiosidade declarada pelo cheiro do pescoço dela e acha bonito o sorriso que não cabe mais dentes.
Ela gosta de quando ele lhe oferece uma margarida. Sabe que há um flerte e gosta. Mas tem medo de palhaços. E gosta de esperar a chuva. Que finalmente cai sem piedade na rua da ladeira de madrugada. Ela abre a janela e desce pela árvore para a rua, o vinho lhe dando uma vontade de dançar incontrolável.
O Palhaço vê que a chuva lhe molha o vestido florido e por alguns minutos lhe admira a valsa trôpega na rua. Ela não vê que ele se aproxima e ele lhe toma a mão num convite reverenciado a dança. Ela sorri. E os dois valsam na madrugada da rua da ladeira. Ela sente o cheiro de cigarro e malabares nele. Ele sente o cheiro de lavanda e canela nela. Ela lhe pergunta se fuma, ele diz que pelo motivo certo ele pára. Os dois vão se aproximando sem perceber, ela considerando o preço, ele percebendo o sinal delicado de sua face molhada.
O céu clareia por um raio e ela se assusta – moças de histórias são sempre assustáveis- e ele lhe diz que está ali e lhe segura as mãos. Ela sorri. E ele percebe que precisa arrumar um giz de cor para lhe desenhar o rosado do lábio. Ela sabe que é ele que lhe observa, e da distancia de uma respiração não lhe desvia o olhar, ele sabe que precisa conhecer a textura daquela boca molhada de chuva para o bem do seu desenho.
A valsa se inicia outra vez, ele lhe conduz pela rua deserta a música que só eles ouvem e a gira e quando ela quase lhe foge, ele a puxa para si e a sua boca encontra a dela. Quando o segundo raio caiu, ele já sabia que o gosto de fruta fresca lhe lembraria sempre de beijos bem dados.

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Letícia Carneiro

Gente, olha só!
Temos atrás eu fiz um concurso aqui de aniversário do blog, o Concurso Cultural 1 Ano Insone. A vencedora foi uma moça chamada Letícia Carneiro, que eu soube essa semana que veio a falecer. Em homenagem a ela, nossa escritora campeã, estarei republicando o conto vencedor.

A Casa da Bruxa


Já tinha ouvido falar que aquele prédio era mal-assombrado, mas nunca acreditei nas lendas urbanas que eram contadas. Era um colégio de freiras, que eram muito rígidas com os alunos. Talvez daí tivessem surgido tantas histórias sobre aquele colégio.

Aos dez anos ouvi falar que havia uma loira no banheiro. Diziam se tratar de uma mulher que foi assassinada e que aparecia no banheiro caçando suas vítimas. Aos doze anos ouvi falar que a estátua da fundadora do colégio se mexia. Alguns diziam que ela piscava, outros diziam que ela mexia o pé e havia ainda os que contavam já ter visto a estátua chorar.

Mas foi aos catorze anos que conheci o que os alunos mais velhos chamavam de "a casa da bruxa". Era uma casinha de madeira que ficava escondida no bosque. Da casa era possível ver a quadra poliesportiva e os quiosques em volta, mas de nenhum desses lugares é possível ver a casa.

Eu estava no meio da oitava série quando ouvi a história pela primeira vez. Diziam que lá habitava uma velha de cabelos longos e brancos, toda enrugada e curvada, que saía de tempos em tempos para assustar as crianças que teimavam em pisar em suas flores para olhar para dentro da casa e saber o que havia lá dentro.

O bedel dizia para as crianças que a história não passava de uma lenda, mas pedia para que elas não se aproximassem da casa. Era, afinal, apenas um depósito de ferramentas.

Num belo dia ensolarado, minhas três amigas inseparáveis e eu resolvemos entrar no bosque. Pegamos um copo e umas folhas de papel e fomos brincar de invocar espíritos, mesmo não acreditando na brincadeira. Estávamos concentradas, esperando algum espírito se comunicar conosco, até que, de repente, ouvimos um grito vindo da casa da bruxa.

Corremos para lá para ver o que aconteceu. Ficamos olhando de longe, sem pisar nas flores que rodeavam a casa. Não havia nada. Maria Aparecida, uma das amigas, resolveu saber de uma vez por todas o que havia lá dentro. Pulou as flores sem pisá-las e se aproximou da porta.

Nós, que ficamos longe, não nos atrevemos a chegar tão perto, mas a curiosidade era tanta que não nos mexíamos. De repente, Maria Aparecida encostou a mão na porta de madeira já envelhecida e a empurrou bem devagar. Não se via nada. Tudo era escuridão. No momento em que ela enfiou a cabeça por entre o vão da porta, eu olhei para as minhas amigas e saímos as três correndo apavoradas.

Eu não cheguei a ver nada, só a escuridão. No dia seguinte, Maria Aparecida não foi à escola. Estranhamos, já que se tratava de uma aluna assídua. Liguei para ela assim que cheguei em casa, mas o que ouvi foi uma mensagem gravada dizendo que aquele telefone não existia.

Na manhã subseqüente, fomos avisados pela diretora da escola que a aluna Maria Aparecida havia sido transferida de colégio. Minhas amigas e eu fizemos um pacto de nunca revelar o que aconteceu naquele dia na casa da bruxa. A verdade é que não só nunca mais tocamos no assunto, como nunca mais nos falamos.

Bem, eu cresci, naquele fim de ano mudei de colégio e nunca mais voltei lá. Aliás, nunca mais falei com ninguém de lá e não tive mais notícias das minhas amigas. De vez em quando tenho alguns pesadelos com o colégio, mas não com o bosque ou a casa da bruxa, mas com os corredores pintados de verde e o elevador medieval que funcionava com uma alavanca.

Um dia desses eu voltava da aula de inglês e resolvi mudar de caminho, passando em frente ao colégio. Parei de frente para o portão principal e fiquei olhando lá para dentro. Não pude deixar de ouvir algumas crianças conversando. Estavam contando histórias de terror. Contavam todas aquelas lendas urbanas que eu ouvira quando tinha sua idade. Uma delas então se levantou e começou a contar uma história sobre a casa da bruxa.

Dei uma risadinha discreta e continuei ouvindo a garotinha contar sua história. Devo ter ficado branca ao ouvir o final da história. A história não terminava com a bruxa que assustava as criancinhas, mas com uma menina que entrou na casa e desapareceu. À noite, disse a menina que contava a história, é possível ouvir o choro da garota que ficou presa dentro da casa da bruxa. Ela chora porque está procurando pelas amigas que saíram correndo, abandonando-a naquele bosque. As outras garotas ficaram de cabelo em pé, mas não tanto quanto eu ao ouvir a garotinha fechar a história dizendo: "diz a lenda que duas já se foram. Agora, só falta uma."

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Obladi, oblada


Andava faltando um colorido nessas postagens mais recentes, e como quem manda em mim sou eu, se o colorido não vem sozinho, a gente pega um monte de tinta e pinta mariposas azuis em tudo o que é lugar. Qualquer coisa que me faça dormir bem à noite.
E só por achar que já chega de tudo o que eu não tenho, por que o que eu tenho não assim horrível. Ao contrário: eu tenho o sorriso de dente torto mais lindo do mundo, uma flexibilidade invejável, péssimas idéias divertidíssimas, vários travesseiros e um pijama de coraçãozinho super fófis que super combinam com a coisa que mais me fez feliz hoje: BEATLES REMASTERIZADO, que eu sou uma pessoa mega blaster massa demais deixei disponível para download aqui, é só a primeira parte, próximo post sai a segunda.

De tudo o que me alegra, pijamas e meias combinando – ou não – têm um lugar de destaque. Eu realmente não entendo a razão de não me deixarem sair de casa com eles ou a verdadeira razão de tanta gente preferir sapatos desconfortáveis, roupas desconfortáveis em uma freqüência assustadora. Eu, nos meus momentos de maiores felicidades estou sempre de pijamas ou vestidos super velhos que eu comprei em feirinhas de praias mal cortados e vagabundos. E é esse o meu segredo de ser tão magistralmente feliz estando em casa: a vagabundagem, essa amiga maluca. Eu sou uma pessoa liberal e o único lugar onde eu posso estar à vontade sem ser presa é na minha casa. E eu adoro muito estar em casa. E sou feliz com os meus pijamas confortáveis de pequenos corações e meias combinando.
E hoje eu tirei a noite para ficar em casa, fazendo coisa nenhuma e nem me ocorrendo a segunda fase da OAB. Hoje eu queria só fazer nada e aí achei os Beatles remasterizados digitalmente e aí é claro que eu fiquei a mais feliz das criaturas cantando todas as músicas no meu inglês venusiano, mas principalmente a mais maravilhosa de todas. E é assim que eu levo a vida, dançando Beatles de pijamas no quarto, cantando com a escova de microfone e extraordinariamente feliz.
Só pelos pijamas, meias, e Beatles.
Mas talvez o filme de Bette Davies que eu vi mais cedo tenha alguma coisa a ver com isso. Obladi, obladá pra vocês todos e vamos todos viver felizes para sempre em supermercados.
Em tempo: Álesson, do Inincol, me deu a melhor idéia do mês: o site Skoob: uma comunidade de leitores onde se permite e estimula a troca de livros. Além da vantagem da troca de livros, ainda dá pra manter um cadastro dos seus livros, de modo que você não vai mais emprestar o livro pro seu cunhado mala e esquecer e acabar perdendo livros. Vão lá, se cadastrem e me adicionem todos para sermos todos amigos nesse Orkut mais legal.







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De como eu virei eu - a instabilidade, a volatilidade e a fantasia que não morre nunca


Ontem eu percebi que havia posto em prática uma série de pequenos gestos sobre a minha sempre planejada mudança de hábitos. Desse modo, percebi que eu não comia porcaria tinha um tempo, e talvez em razão disso eu esteja dormindo melhor. Ontem eu resolvi que ia fazer boxe chinês, já que eu acho que o boxe normal desperdiça muitos bons chutes não usando as pernas. Ontem eu comecei um texto sobre a profunda felicidade que senti quando saí do primeiro treino, morta de cansada e toda quebrada de tanto tempo no sedentarismo.
Ontem eu finalmente consegui sentir aquela sensação de prazer do cansaço que acomete as pessoas depois do exercício físico e eu só conhecia de ouvir falar. Mas aí nem rolou o boxe chinês, e hoje eu só consigo pensar em tudo o que eu ando sentindo falta. É difícil ter vinte e quatro anos e não ter a própria renda. É difícil e eu sei que é por uma causa maior: o meu tão sonhado concurso público de salário que banque os meus sonhos. Eu sei que eu vou conseguir, que eu só preciso de mais concentração. Mas é ruim adiar os sonhos, e é pior quando não se tem mais a certeza se os sonhos são mesmo meus.


Hoje eu só consigo fechar os olhos e lembrar que seja lá qual for o concurso que eu passe, estarei condenada a uma série de ternos e sapatos fechados e cabelo em corte sóbrio quando o meu jeans rasgado pelo uso, minha camiseta branca do WWF e havaianas me fazem tão mais feliz do que o Direito jamais fez. Hoje eu só consigo desejar minha faculdade inútil pra mim, só sei sonhar com o mar azul das Ilhas Fiji onde eu só poderei ir a passeio depois que eu passar no meu concurso que vai chegar, eu tenho fé e talento, mas onde eu queria trabalhar vendo se os vulcões afetaram e afetarão muito a geografia marinha e os golfinhos estarão em perigo.
Hoje eu quero sentir o vento o meu rosto e que ele me faça rir como há muito tempo ele não faz, não que falte vento, mas falta a minha liberdade para contemplar com a paz de espírito necessária. Hoje eu só quero tomar banho de chuva sem ligar pro fato da camiseta ser branca. Hoje só dá pra escrever sobre a falta que me faz sentar num banco da praça do Pax pra discutir questões importantíssimas e absolutamente inócuas com os amigos que eu já não vejo e nem por isso deixo de sentir falta. Hoje eu quero planejar o meu romance, quero falar com as editoras e discutir projetos de capa. Hoje eu quero curtir as ondas do meu cabelo e lamentar a definitiva – não, não ficou feio, na verdade ta linda e eu preciso fazer de novo – só por que os meus cachos morenos sempre me fizeram muito bem e me tornaram mais eu.
Eu não consigo hoje achar que me tornei uma pessoa que não devia, apesar da sensação de que por mais que eu não possa pagar o boxe chinês eu já sei dar soco e chute e só lamente não poder bater em toda essa frustração por ela ser imaterial a despeito das reações físicas que ela me provoca.
Hoje eu só consigo sentir falta de dançar a música que toca na minha cabeça de vez em quando; só sei querer ser oceanógrafa mesmo sem saber nadar; ter minha banda de jazz mesmo sem saber tocar/cantar/o que seja. Hoje eu só consigo me perguntar quando eu parei de fazer um bolo e chamar as amigas; só sei lamentar que eu não tenho mais o sol se pondo que o amigo de infância de quem eu mais sinto falta me fez, e lamento que quando a gente se encontrou de novo já fazia tempo demais pra recriar o laço. Hoje eu só sei sentir falta de morar na mesma cidade do namorado, porque ele tem um abraço excelente que cura qualquer coisa.
Hoje eu só sei ficar triste por não ter puxado fumo em Woodstock, não importando que a minha mãe nasceu em 69. Hoje eu só consigo sentir falta do meu gato Eufeidolócio que morreu na sua primeira expedição fora de casa. Eu estou devendo um texto alegre aqui, mas não vai dar pra sair hoje. Hoje eu só sei pensar em como foi que o colorido desbotou. Eu li hoje sobre coisas urgentes num poema que eu não sei de quem é. E digo a vocês que me lêem, se alguém ainda o fizer, que o poema tem razão e é mesmo urgente encontrar novos raios, rios e manhãs claras. E eu não sei como eu passei tanto tempo sem dar pela falta que eu sinto das minhas amigas de muito tempo que eu só conheci agora.
Hoje eu só sei procurar bolsa pra estudar fora, perto do mar, porque eu sempre fui do mar e do céu e estudar direito sem ver as pessoas me mata um pouquinho todos os dias e me rouba alguns centímetros sempre que eu me privo de alguma coisa pra estudar. “Deu meu coração de falar esperanto na esperança de ser compreendido”. Só sei sentir falta de tudo o que eu não tenho e me dói saber que eu não sei como foi que eu deixei de ser a menina que queria ser astrônoma quando, na verdade, eu nunca deixei de olhar pra cima.





Para Amélia.

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Happiness (is a warm gun, momma)

Eu quero escrever sobre a minha fúria. Mas não consigo encontrar as palavras certas que me façam ver satisfeitas a minha necessidade de desabafo e a minha fúria, simplesmente. Entre as várias razões, por não ter exata certeza da real razão da intensidade da minha raiva. Acho que é por não conseguir ser uma pessoa de mentira, não é de mim usar máscara. Eu sou só eu sempre e não consigo fazer de conta que não me importo. Eu sei o que eu quero, e é uma coisa tão simples, tão básica.
Eu quero ser livre. Eu quero fazer coisas pelo sentimento de dever cumprido, sem esperar um “obrigada” mínimo. Mas é uma m*rda porque nem isso eu tenho. E me irrita. Não só pelo fato de ser obviamente injusto e desagradável, mas pelo fato de que quem não fez nada, só auto-promoção consiga todos os louros e benefícios de ser filho único quando não se é.


Tenho problemas com a minha própria fraqueza, talvez eu seja mais cobrada por esperarem mais de mim, mas não é exatamente uma coisa legal saber que se desaponta alguém. E me irrita mais ainda eu me importar tanto com o que pensam de mim, mesmo sendo a minha mãe. Eu estive sempre sendo comparada com alguém, e sempre me irritou. No começo era com a minha prima “perfeita”, a sobrinha do meu pai que escreveu uma redação onde o time do meu pai empatava e mesmo assim era uma vitória. Aparentemente ela era muito boa em tudo e eu era uma droga que devia ser como ela, mas eu ganhava todos os concursos em que eu entrava – só de redação e poesia, eu sempre soube do meu eleitorado – e ela se revelou medíocre.
Fui criada querendo ser adulta porque criança não tem vez aqui. E não desenvolvi maiores vaidades já que era coisa de gente burra. Às vezes me pergunto como eu consegui chegar a idade adulta sendo criada por eles dois e irmã dos meus irmãos... Quer dizer, aqui só tem pessoas com uma clara personalidade esquizóide, não que eu esteja totalmente livre de danos: me esbagaço pra agradar pessoas que não se importam com ninguém, e não sabem confortar e nem apoiar e não tem respeito por ninguém e tudo o que acontece vira piada. Não entendo e nem acho graça de humor pastelão. Não gosto de chutar cachorro morto.
Talvez eu só precise melhorar a minha imagem, investir mais no marketing pessoal, aqui em casa ser de verdade e honesto não leva ninguém a nada. Deixa pra la, no meu estado de fúria hoje qualquer duas palavras serve.

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De como virei eu - I

Um dia eu percebi que tinha uma coisa me corroendo e não era a azia peculiar. Era um medo. Não o de barata, que não é segredo pra ninguém, mas um medo maior, mais sombrio. Medo de virar robô. Acho que vem daí minha tendência ao incomum. Eu percebi que havia vários hábitos meus comuns a uma infinidade de pessoas e como todas elas eu não pensava ou questionava nada a respeito. Comecei a pensar, jamais me agradou coisas charmosas serem produzidas em larga escala e vocês hão de convir que produção em massa não nasceu pra tudo.

Gosto de pensar que eu sou uma pessoa sem igual ou similar. Anna gosta de ser Anna. E gosto de me bastar nisso. Passei a pensar minha rotina e a ter preconceito com o que eu não gosto, ou o que acho que não gosto. Desse modo, passei a não comer maionese porque na verdade eu não gosto, e com a maionese foi embora várias pequenas coisas como o guaraná, ambientes cheios, novela da globo, grupos de pessoas no mesmo meio que normalmente são vistos como amigos, revista Veja, a fanta laranja, FMs, ferramenta de visualização de visita do Orkut e o próprio Orkut só não foi junto por que é útil de certa forma.


O próximo passo foi perder a vergonha. Admito que eu tenho uma certa neura psicológica doente de conseguir a aprovação da minha mãe e fora isso eu peso e pondero tudo o que eu acredite que deve ser ponderado. E sim, eu sei faz tempo, e vivo isso, que eu não preciso provar nada pra ninguém. Perdi a vergonha do que poderiam achar de mim se descobrissem que eu não dou a mínima pra quando a Copa do Mundo vai ser, ou as Olimpíadas, ou o Campeonato Brasileiro. Eu gosto de passar o dia de pijamas, vendo televisão ou filmes. Acredito que Cidadão Kane é um filmão, mas Quero ser Grande é bastante melhor. Nunca vi Lost e adoro Chuck de Gossip Girl. Acho que Smallville já foi bom, que eu não preciso ser amiga de alguém que eu não gosto só por conviver todos os dias.
Não gosto de Senhor dos Anéis, achei os filmes chatos e os livros uma definição de tédio tão boa quanto Guerra e Paz de Tolstoi. Crepúsculo não é o tipo de filme que me faz sair de casa pra ir ao cinema, mas eu vejo se o dvd tiver em casa – não que eu vá alugar. Recentemente desenvolvi o hábito de ler gibi. Descobri que Neil Gaiman é foda, Dylan Dog é massinha e agora estou sendo iniciada na leitura de mangás. Ainda acho bastante desconfortável ler uma coisa de trás pra frente, mas eu sempre li revistas de trás pra frente, então não entendo de todo porque eu acho tão desconfortável e não inteligente ler “errado”.
Um dia me disseram que eu sou uma she-nerd. Eu achei graça. Mas eu sou. E não é que eu goste de rótulos, mas esse até que me agradou. Agora me falta uma certa persistência e parar de me distrair no caminho. Eu preciso estudar pra passar num concurso bom que pague a vida que eu quero ter. Porque ser nerd e anti-social tem um custo maior do que viver de boemia.




Para Sarah.

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Michael Jackson

Tá. Eu fiquei triste com a morte de Michael Jackson. Triste mesmo, alias, não consegui ainda me furtar de uma certa incredulidade. 80% de mim quer acreditar que ele vai aparecer numa divulgação do álbum póstumo que certamente vai sair com um novo passo de dança, uma nova plástica mal sucedida e mais sucesso estrondoso.
Eu não posso dizer que sou uma fã, dessas de camiseta, de saber tudo da vida dele e coisas assim. E sabia uns passos de Thriller, houve um tempo que tudo o que eu queria era fazer um moonwalk(er?) e por um tempo bastante breve eu até consegui. Claro que há muito de Michael Jackson que eu não sei e determinadas partes assaz obscuras e mal explicadas. Não. Eu não acho que ele tenha sido apenas vítima o tempo todo. Mas eu acredito que ele tenha sido vítima em pontos cruciais.
Uma vez me chamaram de alienada por me recusar a assinar uma manifestação imbecil contra a venda da Vale depois de alguns anos que ela se realizou, outra vez de elitista por ter me recusado a apoiar o assassinato de crianças não nascidas, uma terceira vez deixaram bem claro que eu não era bem vinda por eu insistir em agir de acordo com o que eu acredito. Em nenhuma delas eu me importei, não vai acontecer agora.


Eu sinceramente acho que ele não molestou aquelas crianças. Alguma coisa pra mim nunca bateu ali. Eu não estou dizendo que é normal um homem adulto ter um rancho chamado Neverland com vários brinquedos, um zoológico e um parque de diversões, e crianças que não são suas onde ele brinca para compensar uma infância traumática. Não deixaria filho meu ir brincar lá sem que eu fosse suficientemente íntima pra saber o que acontece lá dentro do mesmo modo como filho meu não vai brincar com adulto nenhum longe da minha vista. Não é pessoal, é precaução.
Eu tenho experiência de prática jurídica suficiente pra saber que onde for possível obter renda, por mínima que seja, vai dar confusão, e eu nem consigo imaginar quanto dinheiro ele tinha. Já vi gente ir às vias de fato por conta de uma pensão de vinte reais, já vi criança visivelmente desnutrida enquanto a mãe calça Arezzo e o pai é político. O que eu vi me fez sempre ter um certo pé atrás quando me contam um história e a imprensa tem um histórico carcará de gostar de sangue.
Pode ser minha ingenuidade, pode ser falta de informação, pode ser o meu cérebro moldado pela tendência que eu tenho de não acusar e julgar antes de ver as provas. E não houveram até onde eu sei. E não nego que por mais estranho que fosse o Rei do Pop, ele parecia mais uma figura atormentada, alguém que tava tentando desesperadamente receber aprovação por alguma coisa, ser reconhecido como mais do que aquilo que pintavam.
Sou de opinião que às crianças devem ser crianças, e devem ser adolescentes os adolescentes bem como adultos os adultos. E eu não existia quando Michael Jackson tinha blackpower e cantava no Jackson 5, vi thriller no Cinema em Casa no SBT e só aprendi o valor quando eu cresci mais um pouco. O Michael Jackson que eu conheci e cresci ouvindo fazia doações milionárias a causas que nem todo mundo lembrava, cantava a igualdade e dizia que não importava a cor desde que fosse amigo. Não combina com um monstro pedófilo – pedofilia com um piá de 14 anos é muito abusar de boa vontade minha.

Pra mim é mais crível a mãe do garoto ter o caráter questionável, todo mundo sabe que dinheiro cega. Eu acredito que o Rei do Pop tenha sido um homem com problemas psicológicos em vários aspectos e precisava de uma ajuda psiquiátrica mais séria. Acredito que sem uma família excelente nenhuma criança agüenta o tranco de ser sustentar todo mundo de casa por força de seu trabalho e sem ter direito a ser uma pessoa em desenvolvimento. Acredito que pai e mãe devem zelar por isso. Acredito que esse não cuidado e a dobradinha da mãe religiosa fervorosa mais pai asqueroso não podia gerar adultos saudáveis.

O que não entendo, por mais que me expliquem e ninguém me explicou, é como alguém com tanto dinheiro, com acesso a tanta coisa, procurou cirurgiões plásticos tão açougueiros. Só se explica se tivesse havido uma recusa dos médicos dotados de licença em novas plásticas e ele ter ido atrás de mão de obra menos qualificada e as plásticas por si só já são sinais suficientes de uma imagem pessoal ao menos deturpada. Eu sempre achei que ele não era feliz. E eu também estou cada dia menos feliz com a constatação de que os meus preferidos morrem de overdose que nem a música do Cazuza, de quem eu gosto bem pouco. Nunca tive muita paciência para imaturidade e frescura, mas algumas letras são ótimas.

Eu cresci ouvindo Michael Jackson. Cresci vendo ele dançar. Não tive pôster na parede dele como tive dos Backstreet Boys e do Axl Rose quando era gente. De algum modo, eu achei que sempre haveria Michael Jackson. De uns tempos pra cá andava ouvindo menos, ver o jeito como era exposto a imprensa me deixava sempre triste. A idéia que eu tenho do Rei do Pop é a de um homem atormentado pelo mundo e pelas pessoas que ele cantou poder mudar o mundo e tocar o céu enquanto pedia ajuda por não poder fazer sozinho. Eu lembro de sempre pensar que devia ajudar, e mesmo achando inócuo eu querer ajudar a salvar o mundo, se Michael Jackson, sendo Michael Jackson não pudesse fazer nada, mais ninguém podia. A primeira vez que eu ouvi Cry eu quis ser médica da Cruz Vermelha. Há uma série de canções dele que me dão vontade de fazer mais. De ser mais. E finalmente, existe algum procedimento ou medicamento que faça alguém ficar branco?
Michael Jackson sempre foi pra mim meio etéreo, e eu realmente achei que ele não ia morrer nunca. E não vai, deve ta contando história com o Rei do Rock e o Rei Lagarto. Me entristece que meus heróis fiquem velhos, parece que pequenas partes de mim morrem com eles. Do Rei do Pop a minha dúvida sempre foi quanto a própria mortalidade, acho que todo mundo sabia que se fosse possível que ele morresse, seria mais ou menos assim. Parece que os reis sempre vão do mesmo jeito. Paciência, é torcer para que existam coisas boas em maior número que as más que certamente existem, mas que figura que quis fazer a diferença não foi polêmica? E ninguém se esqueça que Michael Jackson tinha consciência social antes de Bonno e de Jolie. Acho que é isso, ele deve ter voltado pra casa e eu tenho que entender que preciso começar a realizar meus sonhos. Tava lá na lista das coisas a fazer antes de morrer: ver show do Rei do Pop. Agora não dá mais. E isso me dá a sensação bastante cruel e talvez a verdadeira responsável pelo meu choque e desanimo desde a notícia da morte, de que eu estou demorando demais pra realizar meus sonhos.


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Alguém sabe como faz p tirar férias da vida?
Alguém sabe como faz p voltar p o ponto em q desandou?
Bláh. Paciencia tão esgotada com tudo. Tão blergh.
To pensando seriamente que é melhor eu fumar os livros, quem sabe assim eu aprendo mais? Só ler não tá dando muito resultado.

Bah. A crise e mais ou menos isso. Se persistir eu posto foto do cigarro de livro, da fogueira de cadernos e da minha rede em dois coqueiros perto da barraca de coco verde na praia mais próxima.

Culpa minha. Eu sempre quis abrir cabeça. Não sei pra que eu fiz aquela faculdade sem futuro e cheia de gente insuportável.


Aos navegantes: se você não tiver certeza mais absoluta que o 0 Kelvin, NÃO FAÇA DIREITO.

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Da série: daquilo que me irrita - cinema

Eu comecei a fazer posts sobre filmes por força de pedidos de indicações que sempre recebo. Claro que eu acho que se alguém me pagasse pra ver e comentar a parte do comentário perderia boa parte da graça, mas ia ser um emprego bem melhor que qualquer um que eu consiga estudando Direito. Eu não costumo ler outras resenhas dos filmes que decido comentar. Na verdade poucas coisas me irritam mais do que ler a opinião de críticos “profissionais” sobre filmes. E até parei mais ou menos de postar resenha aqui pra tentar entender a razão de eu me irritar tanto com isso. Mas como eu sou dura na queda, cheguei a uma conclusão que para mim faz todo o sentido do mundo - e isso quer dizer que mais ninguém vai entender xongas.
Eu tenho vontades. Tanto de tomar sorvete de limão num dia quente – ou frio – ou de escutar a Rock DJ quando eu ligo o – inserir a palavra de baixo calão que lhe for conveniente. E eu sou uma pessoa intensa, quase passional. Eu sempre fui mais Scorsese do que Polanski. Mais Garcia Marquez que Saramago. Convenhamos, eu nasci no nordeste do Brasil e gosto de colorido, de América Latina e daquilo que me faz humana. Eu acho que cariocas não entendem nada de carnaval porque ficar sentado vendo gente em roupas coloridas desconfortáveis é patético. Carnaval é meio de rua, é criatividade e folia de verdade. Minhas vontades são superlativas todas. Eu tenho isso como certo. Eu quero sempre muito, quero sempre agora e quero sempre me lembrar de que eu estou viva agora, não daqui um tempo.

Então, quando eu quero ver um filme, dificilmente qualquer filme dá certo. Eu tenho vontade de ver comédias romanticas, ou suspense bem amarrado, um drama bem construído. O filme que eu quero ver pode ser pra me distrair ou porque eu ando querendo conhecer algo, rever um ator que eu tenha gostado em algum filme ou série. Se eu não estiver no clima de seriedade, dificilmente vou gostar de Louca Obsessão. E eu adoro Louca Obsessão.
Certos filmes são apenas entretenimento. Não se pautam a criar valores, ou o público não deveria deixar que o fizessem. Cinema pra mim pode ou não ser coisa séria, mas é sempre uma vontade a qual eu me entrego feliz. O problema é que se cria muita teoria sobre filmes onde eu nem sempre consigo ver a necessidade. O Código da Vinci me parece uma tentativa desesperada de ganhar dinheiro as custas de um best-seller sim, mas uma direção de pulso mais firme e a ausência de infográficos teriam ajudado. Casablanca não é cult, e ver filmes em preto em branco não faz de ninguém um intelectual. Há dias em que eu tenho necessidade de Casablanca, que é um dos meus filmes preferidos e um Zé aí que o tinha como uma catarse e passou a odiar o filme por ter se apaixonado pela Ilsa aqui e eu não acho que neuróticos façam o meu tipo. Ele disse que o filme foi destruído por mim e tinha parado de analisar a película pra não pensar em mim. Oh Céus! Meus sais!
O que eu estou tentando dizer é que cinema por vezes é só cinema. Uma história encenada que pode ou não ser crível e eu preciso estar disposta a passar uma hora e meia da minha vida vendo. Não que vá ser sempre bom, ou deva ser sempre ruim, mas tenho visto uma acidez desnecessária e pouco prática por aí. Vi uns amigos descerem a lenha em PS. Eu te amo. Como eu já vi faz um tempo, fui rever. Caramba, eu adorei o filme. Não achei uma história que devesse dar o Pulitzer pra ninguém mas é um filme gostoso de ver. Não sei se porque eu sou muito parecida com o Gerry da história - e paquero a ideia de performances musicais estapafúrdias e venais - e namoro uma pessoa tão organizada e responsável quanto a Holly. Eu me identifiquei com a idéia de que exista um amor tão grande que a morte iminente não acaba com a necessidade que se tem de cuidar de alguém.
O Butler tá deliciosamente interessante, o Daniel – não sei o nome do ator – é inteligente, a Swank tá bem como a Holly e eu não sei resistir a Jeffrey Dean Morgan, ainda mais quando ele é da Irlanda, marrento e sensível, toca violão, lança aqueles olhares bem dele e... enfim. é um romance com uma trilha sonora gostosa, uma fotografia bastante boa e cheio de personagens masculinos mortos – sem trocadilho – de charmosos. Praticamente irresistíveis. Mas não resolve a crise econômica e nem se propõe a isso. É pipoca pra comer de dois, agarrado no sofá ou com as amigas, pra comentar maliciosamente todas as seqüências. Cinema pra mim é vontade. E eu estava com vontade de ver uma história em que um cara conhece uma garota, acontecem vários problemas e no final dá tudo certo. E se você pensar bem, até sexta-feira 13 é assim.

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Que livro você é

Vi na Jana e não resisti. Tinha que saber que livro eu sou:

"Antologia poética", de Carlos Drummond de Andrade

"O primeiro amor passou / O segundo amor passou / O terceiro amor passou / Mas o coração continua". Estes versos tocam você, pois você também observa a vida poeticamente. E não são só os sentimentos que te inspiram. Pequenas experiências do cotidiano – aquela moça que passa correndo com o buquê de flores, o vizinho que cantarola ao buscar o jornal na porta – emocionam você. Seu olhar é doce, mas também perspicaz.
"Antologia poética" (1962), de Drummond, um dos nossos grandes poetas, também reúne essas qualidades. Seus poemas são singelos e sagazes ao mesmo tempo, provando que não é preciso ser duro para entender as sutilezas do cotidiano.


Adorei. A minha cara mesmo.

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